


Hoje talvez muitos de nós comecem a perceber que estamos a pagar um preço demasiado elevado por termos esvaziado aquilo a que chamamos a opinião pública de toda a diversidade cultural, religiosa, espiritual. Quando retrospectivamente olhamos no aniversário de mais um 25 de Abril um documentário sobre José Afonso, percebemos que há uma dimensão da nossa vida que se perdeu. Há trinta e sete anos não deixaríamos que tantos oráculos medíocres viessem começar uma frase por o que as pessoas querem, o que as pessoas precisam, o que as pessoas gostam. O que faz as pessoas felizes. E perdeu-se porque a perdemos. Ninguém nos roubou.
Ando a escrever o mesmo há alguns meses: esta crise só é má para quem acha que viviamos bem. Para aqueles que achavam que viviamos mal, que a nossa vida estava presa a valores identitários que nos enfraqueciam, o momento que atravessamos é uma oportunidade. É isso que nos diz a cultura. Ela diz-nos: não aceites inevitáveis, tu podes ser dono da tua vida. A vida pode ser diferente. A vida pode até ser nossa. E não há mal nenhum em que isto seja apenas uma utopia. Mas atenção: esta crise é um momento dramático em que não podemos baixar os braços, desistir. Não podemos desistir de pensar, de dizer. E não podemos de deixar de passar entre nós aquilo que pensamos. Mesmo que nos custe tanto pensar. Porque achamos que é tudo remar em seco e em círculo. O que a cultura nos diz é que o momento da transformação é uma festa. E se ao lermos isto pensamos o quanto de absurdo e irrealista é alguém escrever que o momento de transformação é uma festa, antes de abjurarmos este lirismo pacóvio talvez seja melhor irmos ao espelho vermos se ainda somos nós do outro lado."
[fragmento de um texto com o mesmo nome antes publicado aqui]
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